Um Planeta Desconhecido

Fazia uns minutos que Jensen estava olhando para as crianças, esperando que elas fizessem silêncio. Algumas delas perceberam a intenção do rapaz e começaram a se calar e pedir as outras que ficassem quietas também. Todos estavam sentados no chão, em cima de um tapete quente, perto da lareira, por causa do frio que fazia fora do chalé, acharam que era uma boa ideia acender o fogo. Porém, as crianças estavam impacientes, queriam brincar lá fora,mas tinham que ficar ali dentro, por ordem de seus pais, já que eles foram às compras. Jensen era irmão de um dos pequenos e ficou encarregado de cuidar das 5 crianças bagunceiras. Estava impaciente com tantos pedidos para sair que decidiu contar uma história. Ninguém parecia interessado naquilo, mas decidiu que tentaria mesmo assim. Sentou-se no chão em frente a elas.

Assim que todos estavam com os olhos fixados em Jensen, ele falou:

— Bom, o que vou contar a vocês é uma lenda antiga de um povo desconhecido. A história  foi escrita em um diário muito velho contando como foi que uma mulher viajou a um mundo desconhecido através de um portal! — fez uma pausa e esperou por alguma objeção ou algum tipo de pergunta. Nada aconteceu. Pigarreou e então continuou:

“Célia era uma mulher comum, com uma vida como todas as outras pessoas na pequena vila da Clareira. Era uma padeira incrível, com doces e pães maravilhosos que todos ali nunca deixavam de comprar, além disso era uma ótima escritora, inventando diversos tipos de histórias para, quem sabe, lançar algum tipo de livro no futuro. Também contava algumas delas paras as crianças daquele local. Todos a adoravam. Os pequeninos um pouco mais, pois, sempre podiam contar com alguma contação e alguns bolinhos. Os outros moradores, após o trabalho, as vezes sentavam-se também para ouvir e comer juntos com elas. Era relaxante e os dias seguiam dessa maneira. Ninguém se cansava. Mas um dia, algo incomum aconteceu.

A padeira estava em seu quarto, escrevendo uma nova história, tão concentrada que nem prestava atenção enquanto seu gato bagunçava pela casa. Sempre fora muito focada. Quando ela terminou o primeiro capítulo, Célia estranhou, estava tudo muito silencioso. Pensou que talvez o Trigo, seu gato, tivesse dormindo, cansado da agitação. Foi verificar e o encontrou jogado no sofá. Voltou ao seu quarto, mas ao abrir a porta, se assustou. Havia pequenos pontinhos brilhantes pela escuridão, era tão intensa que parecia ter entrado dentro de uma grande caixa. Virou-se para correr e viu uma enorme esfera rochosa se aproximando, apavorou-se e começou a cair sem parar numa escuridão total. Tudo que havia de luz eram os pontinhos brilhantes espalhados. Enquanto caia, gritou sem parar e rodopiou no ar, então avistou uma poeira brilhante e colorida se aproximar rapidamente. Lembrou-se dos livros de Astronomia e reconheceu a nebulosa. Estava sendo engolida por ela. “

 

Jensen fez uma pausa. Correu até a cozinha trazendo garrafas de água para cada um. Bebeu um grande gole e respirou um pouco antes de continuar. Certificando-se que todos estavam atentos a história.

“Ela acordou. Se viu jogada no chão em meio a muita poeira e pedras. Levantou assustada, se surpreendendo com a visão que teve do lugar. Em sua volta haviam gramados, rochas, montanhas enormes e árvores, todos com cores nunca vistas antes. Ela era incapaz de descrever. O céu era surreal, de uma coloração rosada, com um grande corpo celeste que não se via sua forma toda, estrelas por toda parte e o sol, bem, não era o sol como estava acostumada, seu fogo era azul e seu tamanho era maior. Sentia que o ar daquele local parecia ser mais leve e limpo, mesmo não sabendo como aquilo era possível. Aves voaram por cima de sua cabeça, se perdendo entre as árvores. Espécies que Célia nunca havia visto nos livros. Andou até onde começava o gramado e o tocou, sentindo que era muito macio como um cobertor. Avistou alguns animais correndo, tão esquisitos quanto o local. Caminhou até eles, assustando-os. Percebeu, também, que havia um lago por ali, com águas tão cristalinas, que tornavam possível enxergar todo o fundo. Peixes estranhos, pedras e algas, estas eram semelhantes com as dos livros, mas com as cores exóticas. Agachou-se e bebericou aquela água, sem saber se era ou não perigosa.

Era igual a água do rio da vila ou qualquer outra, porém estava muito refrescante.

Célia sorriu, riu, pulou, correu, se jogou no chão e rolou, jogou água para cima, molhando-se, e bebeu mais ainda. Estava impressionada com o que tinha descoberto, seja lá como e onde fosse. Era um mundo único e muito belo. Tinha que contar a todos. Principalmente as crianças! Iria escrever histórias sobre aquele mundo! E por isso mesmo, decidiu explorar mais. Correu para lá e correu para cá, descobrindo flores tão cheirosas que dariam ótimas essências, frutas tão gostosas que seriam caras demais caso fossem vendidas, rochas tão brilhantes que poderiam ser consideradas pedras preciosas e animais tão exuberantes que poderiam ser uma grande atração em algum safari. Ela queria ter uma câmera naquele momento para registrar tudo, desde os grãos de terra até a maior das coisas.

Passou-se um tempo e a mulher continuava a andar por tudo, descobrindo cada detalhe, anotando mentalmente para passar tudo para o papel. Não podia esquecer de nada. Continuou a caminhar e se embrenhar entre as árvores, conhecendo os insetos, que eram grandes demais com os quais  estava acostumada, avistando rios, sempre pausando a exploração para beber. Gostaria de levar um pouco dela para todos experimentarem o quanto era fresca. Seguia mais e mais, descobrindo a quantidade impossível de espécies diferentes de fauna e flora no mesmo lugar, coisa que nem mesmo a Amazônia podia se comparar. Era incrível! Porém, o que lhe chamou mais atenção foi um grande buraco a frente, onde a floresta acabava. Se aproximou com todo cuidado,e percebeu que ele atravessava o planeta, mostrando mais estrelas, meteoros e uma nebulosa ao fundo. Célia sentiu-se  um pouco assustada. Se algo caísse ali, o que aconteceria? Ela pegou uma pedrinha colorida e jogou. A pedra foi engolida numa velocidade impressionante e a perdeu de vista. Pegou uma outra, um pouco maior e mais chamativa. Se preparou para repetir o movimento, quando ouviu algo e se virou. Um vulto passou correndo por entre as árvores. Se levantou, assustada. Tinha alguém ali? Não esperava por essa. Não havia pensado na probabilidade de existir humanos ali. Que forma eles teriam? Seriam como os humanos? Normais? Viu o vulto de novo, dessa vez pareceu avançar devagar e então, do outro lado, algo correu. Eram dois? Se desesperou. Estava sozinha num local desconhecido, sem saber o que podia acontecer. Como sairia dali? Só agora percebeu. Algo pulou de um lado, fazendo ela saltar para trás. Era um animal que a fazia lembrar de um lobo. Suspirou, aliviada. Era apenas um animal. Sim, só podia ser, afinal, parecia não haver vida humana por ali, mas, algo correu por trás do “lobo”, carregando uma tocha, com um fogo lilás. Voltou a ficar nervosa. Ela agora ouvia barulhos das plantas se movendo, percebendo que estava ventando pela primeira vez, fechou os olhos por alguns segundos, sentindo a brisa e o cheiro das árvores invadirem suas narinas. Ao abrir os olhos, gritou ao mesmo tempo que pulava para trás e escorregava entre as pedrinhas. Precipitou-se no buraco. Ela esquecera que estava atrás da fenda e cairá rapidamente enquanto olhava para aquela forma coberta com um capuz negro. Gritou, desesperada, parecendo pior que na primeira vez. Novamente, seguiu rápido em direção a nebulosa, sendo engolida pela poeira cósmica.”

 

O rapaz fez uma longa pausa,percebendo que as crianças estavam ao mesmo tempo  assustadas e curiosas. Dylan, seu irmão, começou a fazer perguntas:

— Mas o que aconteceu com ela? Ela foi para um outro mundo? Quem era a forma? Era uma pessoa ou um extraterrestre?

As outras crianças o imitaram, fazendo as mesmas perguntas, questionando tudo entre si. Jensen se divertiu com a curiosidades deles, então ergueu a mão, pedindo silêncio.

— Calma aí! Ainda não terminei a história, depois que acabar, aí vocês podem questionar e imaginar o que foi que houve. — Piscou para elas. Maria, sua prima, pediu que continuasse rápido, pois estavam loucos para saber o desfecho. Ele obedeceu.

 

“Célia acordou assustada, gritando, em cima da sua escrivaninha. Ela olhou ao redor e se viu no quarto, normal como sempre fora. Correu pela casa como que para ter certeza e voltou ao quarto, viu Trigo, deitado em sua cama, olhando-a com curiosidade. Sem saber o que havia acontecido, a mulher pegou seu caderno com as anotações da história que estava escrevendo antes de tudo aquilo. O primeiro capítulo estava incompleto. Percebeu que tudo fora um sonho. Nunca tinha ido para lugar algum, imaginara tudo aquilo. Sentiu vontade de chorar. Tinha sido algo inédito e teria tido tanta coisa para contar às crianças. Histórias para seus futuros livros. Jogou seu caderno com força na mesa, derrubando algumas coisas. Um barulho alto soou no quarto e Trigo correu até o chão, com os olhos marejados ela viu que o gatinho estava cheirando algo brilhoso no chão. Se aproximou e sorriu, como nunca antes. Era a pedra que segurava, antes de cair. Ela realmente estava ali, em seu quarto. A pegou e a examinou como que para ter certeza que era a mesma. Assim que confirmou foi atrás de papel e caneta para começar as anotações.”

— Acabou? — perguntou Thomas — Ela realmente foi para lá?

— Esse lugar realmente existe? Eu queria muito conhecer o lugar! — exclamou Dulce e olhou para Gustavo — Será que a gente consegue ir pra lá?

Antes do garoto responder, os outros se juntaram a ele e conversaram animadamente sobre a possibilidade de irem e como. Sobre que formas existiam ali e como eram as cores nunca vistas. O sol azul, a água cristalina com pedrinhas coloridas. Inventaram alguns nomes estranhos e mistura de animais, flores e plantas que só crianças eram capazes. Jensen apenas observava todo aquele alvoroço, feliz por vê-las tão curiosas, e percebendo o quanto eram criativas. Estavam tão entretidos que não perceberam quando seus pais chegaram.

Eles correram até eles, ajudando com as compras e contando a história, fazendo perguntas se aquele lugar existia mesmo. Quando o pai de Dylan e Jensen entrou, notou a agitação e disse:

— Acho que foi uma boa ideia ter trazido o telescópio para cá.

As crianças gritaram felizes, correndo para o terraço, esperando, impacientes, que montassem o telescópio. Passaram boa parte da noite ali, observando o céu, imaginando onde aquele planeta desconhecido e lindo estaria.

 

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Texto escrito pela amiga Kami Alves que foi convidada a escrever para o blog Quarto Minguante no dia em que eu publicaria e agora, trago a linda história dela para o universo da Insanidade Lúcida.

 

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Avante

 

O tambor ressoa na batalha

Gritos e mais gritos no ar ecoam

Os raios rompem o céu e sobrevoam

O sangue a cada golpe que se espalha.

 

Mulheres e crianças, queima a palha

Os bardos os teus feitos nos entoam

Canções sobre teus barcos não enjoam

Pois sobre a nau cristã te desencalha.

 

Bebeis, guerreiros, com teus deuses

Pois teu grande destino se desata

De encontro com teus filhos sem reveses

 

A guerra, guerreiros, a guerra

O teu rei o ódio em ti então desperta

Para crescer em outro lar, uma nova terra.

 

Texto escrito por um grande amigo, Jorge Inácio Dotti

e também publicado no blog Quarto Minguante

A Procura de um Calmante

Após a tempestade

Vem a calmaria…

Depois vem o céu ensolarado,

Uma tarde nublada,

Um gélido crepúsculo

E uma noite quente!

 

O clima abafado

Traz chuva forte na certa!

Mas logo o Sol brilhante

Revela um arco íris cintilante

Ao fundo de uma calorosa garoa

Em meio a um vento frio que atordoa.

 

Bruce estava armado,

Com guarda chuva, chinelo e camiseta…

Na incerteza das mudanças, preparado,

De chapéu, galocha e jaqueta…

Estava, mas não queria manter-se irritado,

O jeito foi ir à farmácia para alcançar sua meta.

 

Poema publicado também no blog:

Quarto Minguante

Cantiga para Beatriz

Beatriz

Bom dia!

Como você está?

Hoje é seu dia

De ser feliz!

 

Beatriz

Boa tarde!

Já está na hora

De ouvir o alarde

Que eu sempre quis!

 

Beatriz

Boa noite!

Tenha bons sonhos

Que você nos afoite

Nossa bela petiz!

 

Este poema surgiu em alguns dos momentos mais lindos, gostosos e felizes da minha vida e da minha esposa nos últimos dias. Embalando minha filha Beatriz, para acalmá-la ou fazê-la dormir tentei lembrar daquelas conhecidas músicas de ninar, mas não consegui lembrar de nenhuma letra delas, a única saída que tive foi inventar uma música pra ela, não tenho uma voz maravilhosa mas o importante é que funcionou, uma, duas, três vezes… então resolvi escrever e fazer oficialmente uma Cantiga para Beatriz.

Humanamente Nato

Ser para pensar,

Pensar para construir,

Construir para estar,

Estar para existir…

 

Diálogo e honestidade,

Empatia e responsabilidade,

Luta e sabedoria,

Aprendizado e teimosia…

 

A complexa indiferença,

Uma forte ira,

Uma simples mentira,

E a completa descrença!

 

Obviamente duvidoso

E claramente esplendoroso,

Sentir no olhar de uma criança

A real e verdadeira esperança!

 

 

*Texto também publicado no blog: Quarto Minguante

Bodas de Trigo

À minha esposa Juliana

 

Hoje, estamos colhendo

os primeiros frutos

De uma união

Com muitos joios

Mas ainda assim sadia!

Com alguns arranhões

Resistente como couro

Reluzente como ouro

Leve como pluma

Vital como água!

 

Há filósofos que são, em resumo,

tenores desempregados

E na certa ausencia de prumo

não costumam ser amados.

Como dizia o Poetinha

É preciso estar inteiro

Para Viver um Grande Amor!

 

E na perspectiva da colheita

De um lindo trigal dourado

É preciso que se ame

E amando se seja Feliz!

 

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